sábado, 30 de março de 2013

Uma frota milionária ao relento

24/03/2013 - Rede Bom Dia

Furtado, sucateado e enferrujado, material rodante que repousa em Triagem Paulista chega a R$ 5 mi

Por Rodrigo Viudes

Em um indisfarçado último suspiro de manutenção estatal, os trens de passageiros da Fepasa (Ferrovias Paulistas S/A [1971-1998]) ganharam novas "versões" em 1996.

Criaram-se alguns expressos como os trens "Bandeirantes", "Estrela d'Oeste" e até um "remake" do lendário "Trem Azul", que nem na cor era mais igual – tampouco na eficiência de horário e atendimento.

A "novidade" demandou investimentos que, à época consumiram em média mais de R$ 200 mil dos cofres públicos em reformas por carro de passageiros, segundo o próprio governo divulgou.

Mas, o que parecia ser uma retomada dos investimentos no setor acabou, ainda em 1996, com o anúncio pelo mesmo governo estadual, então conduzido pelo tucano Mário Covas (1930-2001) do processo de desestatização nacional que acabou por encaminhar para o fim da própria Fepasa.

furtos / Parte desses investimentos encontra-se estacionado desde 2009 no pátio de Triagem Paulista, em franco processo de deterioração e desvalorização, ao lado de centenas de vagões e locomotivas.

Inicialmente, foram alvo fácil dos ladrões, que depenaram tudo em busca principalmente da fartura de cobre das locomotivas elétricas e tudo mais que tivesse algum valor nos carros de passageiros.

A farra só ganhou alguma resistência a partir de 2010, após a presença permanente de seguranças de uma empresa contratada pelo Dnit (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes).

Um desses profissionais acompanhou o BOM DIA em uma visita autorizada pelo órgão federal, no começo deste mês. São apenas seis, todos armados, além de três cães, para guardar um patrimônio de valor histórico inestimável.

valores / Apesar dos estragos, parte do material rodante ainda pode ser recuperado. Os carros de passageiros, por exemplo, estão entre os ítens que deverão ser cedidos para exploração de trens turísticos.

A recuperação de cada unidade estaria orçada, hoje, entre R$ 300 mil a até R$ 500 mil, segundo apurou o BOM DIA com empresas do ramo no Brasil.

"Recuperar um material varia muito de um para outro considerando estado, mecânica, hidráulica, freios. Locomotivas então, impossível, saber o que pode se fazer", comentou o diretor regional da ABPF (Associação Brasileira de Preservação Ferroviária), Carlos Alberto Rollo.

Das máquinas, apenas as diesel-elétricas eventualmente teriam condições de recuperação. Cada serviço não sairia por menos de R$ 1 milhão. Já as elétricas estão condenadas à história: a recuperação é mais cara ainda e não há trecho disponível para trafegarem mais.

Mesmo como sucata, o material rodante ainda valeria muito. Segundo relatório da Polícia Federal da Operação "Fora dos Trilhos", deflagrada em 2008, cada locomotiva chegou a ser vendida a atravessadores por R$ 69 mil.

A partir dos valores identificados pela PF, o BOM DIA fez um levantamento em Bauru e chegou a uma soma milionária. Mesmo abandonada, toda a frota não custaria menos de R$ 5 milhões.

Leilão de vagões não atraiu ninguém
Por duas vezes, o Dnit tentou vender sete lotes de vagões avaliados em R$ 2,5 milhões, em Bauru. Mas, não apareceu sequer um comprador.

633 Vagões estão em Triagem paulista, segundo a ALL

Nem Dnit sabe quantidade de bens móveis em Bauru

A situação de abandono da frota ferroviária é de tal gravidade que nem o Dnit (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes), que herdou o patrimônio da extinta RFFSA (Rede Ferroviária Federal S/A [1975-2007]) , sabe o que sobrou.

Inclusive em Bauru. Nesta semana, o BOM DIA solicitou ao órgão que informasse a relação completa dos bens móveis (locomotivas, carros de passageiros e vagões, utilizáveis ou não), que se encontram por aqui.

A resposta foi inacreditável: "Já transferidos ao Dnit pela Inventariança da extinta RFFSA há, atualmente, em Bauru: três vagões, cinco locomotivas e cinco carros de passageiros".

O órgão simplesmente ignorou, por exemplo, o lote de quase 400 vagões que tentou vender por duas vezes em leilões adiados em dezembro e janeiro. Detalhe: todos estão recolhidos em uma área cercada com placa de identificação do departamento.

Além desses, há centenas de outros vagões, carros de passageiros e locomotivas que carregam o aviso "propriedade do Dnit", escritos em destaque, com fundo preto.

Segundo informou a ALL (América Latina Logística), esse contingente seria de 633 unidades, apenas em Triagem Paulista. Destes, apenas 25 estariam sob a responsabilidade da companhia.

"A maioria não tem condições de recuperação e aguarda autorização para baixa definitiva. Os demais são vagões de serviço ou a serem recuperados", informou a concessionária.

A ALL informa ainda, na mesma nota, que "tem total interesse na remoção e destinação final dos vagões inservível sob sua responsabilidade, restando apenas a autorização para sua retirada ou destinação final".

Nessa toada, enquanto o Dnit ainda procura saber o que é de sua responsabilidade e a ALL não cuida daquilo que recebeu, o patrimônio ferroviário segue no trecho – do abandono.

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