sábado, 21 de agosto de 2010

Indústria continua otimista mesmo com queda


20/08/2010 - Valor Econômico


Apesar das fabricantes de trens apostarem suas fichas no crescimento do transporte ferroviário de passageiros no Brasil, a produção e reforma de vagões em geral sofreu uma queda de 19,3% no primeiro semestre deste ano em relação ao ano passado, segundo dados do Instituto Brasileiros de Geografia e Estatística (IBGE). É um ponto fora da curva na indústria nacional, que cresceu 16,2% nos seis primeiros meses de 2010, na comparação com o mesmo período de 2009.

Dados da Associação Brasileira da Indústria Ferroviária (Abifer) indicam que o problema está no setor de passageiros, que neste ano produziu, até junho, 83 carros (composição do trem), enquanto nos primeiros seis meses do ano passado foram produzidos 224. A entidade não tem os dados fechados do semestre sobre reparação de trens, que poderia estar contribuindo também para o resultado negativo.
Segundo empresas ouvidas pelo Valor, no entanto, o ritmo de investimentos não está menor e elas projetam crescimento do faturamento e da entrega de trens no ano. De acordo com a Abifer, o setor de ferrovias deve faturar 38% a mais neste ano, chegando a R$ 2,9 bilhões. Em 2009, o crescimento foi de 11%. "Os investimentos estão crescendo", diz Vicente Abate, presidente da Abifer.

Uma das hipóteses levantadas pelos executivos para essa contradição é que, como as entregas dos vagões não ocorrem regularmente, os dados de produção poderiam dar uma falsa impressão de que as empresas estão fabricando e reformando menos, quando na verdade estão com uma carteira maior de projetos em andamento.

A Siemens Mobility, braço brasileiro da companhia na área de transportes, deve terminar neste ano a produção de 46 vagões para passageiros, dos quais 28 já foram entregues para o Metrô de Recife. No ano passado, foram finalizados 24 vagões do mesmo contrato. "O mercado está aquecido, estimamos que vamos ter um crescimento de 30% no faturamento em 2010", diz Paulo Alvarenga, diretor da companhia. A empresa também trabalha com serviços agregados às reformas dos trens.

Para o executivo, o que está influenciando os dados de queda da produção é o fato de os contratos serem longos, e com isso, a entrega ocorrer de forma irregular. O contrato assinado pela Siemens com o Metrô de São Paulo no fim do ano passado, por exemplo, é para a reforma completa de 25 trens - ou 150 carros - ao longo de cinco anos, sendo que o primeiro trem, com seis carros, está previsto para o fim deste ano.

Por conta desse contrato, inclusive, de R$ 460 milhões, a Siemens inaugurou uma fábrica na cidade de Cabreúva, interior de São Paulo, em janeiro. "O setor está passando por um momento muito bom, e os contratos hoje ocupam a capacidade da indústria nacional", diz Alvarenga. A companhia anunciou um plano de investimento de US$ 600 milhões para os próximos cinco anos.

No ano que vem, com base no contrato com o Metrô paulista, a Siemens deve entregar mais seis trens, ou 36 carros, o que daria um número menor que os 46 neste ano. Mesmo assim, Alvarenga lembra que o valor do contrato é superior ao de Recife, por prever uma reforma mais profunda.
Na CAFdo Brasil, o desempenho este ano também está positivo. A empresa instalou recentemente uma fábrica no país para atender à demanda dos contratos firmados com a Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) para a fabricação de 48 trens, e com o Metrô de São Paulo, para mais 17 trens. São os primeiros contratos da empresa, e neste ano já foram entregues 9 trens para o Metrô. Para a CPTM, as entregas começam a partir do ano que vem.
"Pode ser que os investimentos públicos não ocorram na velocidade esperada, mas os negócios estão sendo fechado e os trens estão sendo entregues", diz Paulo Fonteneli, presidente da CAF.
No fim deste mês, a expectativa é que saia o resultado de uma nova licitação, para a compra de 26 trens para a Linha 5 do Metrô de São Paulo.
Por outro lado, vários projetos anunciados estão com atraso no cronograma, como por exemplo, o Veículo Leve sobre Trilho na Baixada Santista, cuja previsão inicial era ter a licitação lançada em setembro de 2009, e hoje está em fase de audiência pública, e o metrô de Salvador - Acesso Norte a Pirajá -, cujas obras estão paralisadas pelo Tribunal de Contas da União.
Luis Ramos, diretor de comunicação da Bombardier Brasil, lembra que, por conta dos elevados recursos envolvidos e a complexidade dos projetos, os investimentos nesse setor nunca foram estáveis. "Eles alternam entre períodos de grande investimento e outros de aparente estagnação ou mesmo recuo", diz.
Para Alvarenga, da Siemens, como o transporte ferroviário de passageiros estava há muitos anos sem investimentos, mesmo com os atrasos, a recuperação recente está sendo suficiente para movimentar a indústria. "É muito mais do que estava sendo feito, havia demanda grande represada."

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