quarta-feira, 19 de maio de 2010

"Superficialidade" do TAV inibe empresas



19/05/2010 - DCI

Depois dos incidentes para realização do leilão da Usina Belo Monte, as empresas interessadas na licitação do trem de alta velocidade (TAV) também se mostram receosas em relação a este projeto, alegando superficialidade dos estudos realizados, recorrentes atrasos para o andamento do processo e falta de informação. A construtora Odebrecht afirmou o interesse em participar da licitação, mas deixou claro que não irá liderar consórcio algum. Já a ferroviária Alstom deve encabeçar um consórcio apenas com empresas brasileiras.
A Odebrecht, que também participou de um consórcio para construção da Usina Belo Monte, mas a poucos dias do leilão resolveu abandonar a disputa, vê o projeto do TAV com desconfiança.
Segundo o diretor de Engenharia e Infraestrutura da empresa, Dante Venturini, o processo do TAV ficará mais complicado que o de Belo Monte, uma vez que os estudos de viabilidade do projeto da usina eram mais elaborados. "Com todos os estudos para Belo Monte o processo já foi difícil, imagine para o TAV, no qual os estudos são muito superficiais", analisou Venturini.
Uma fonte ligada à CPRM, que é a empresa pública vinculada ao Ministério de Minas e Energia com as atribuições de Serviço Geológico do Brasil, confirma que os estudos geológicos e geofísicos pedidos pelo governo foram realmente muito preliminares, "o que daria apenas um caráter de pré-viabilidade ao projeto". Ela também comentou que o governo foi alertado do fato de que o prazo para a entrega dos estudos era muito curto e que não seria possível detalhar mais. No entanto, a data não foi alterada.
Em contato com a CPRM, o coordenador do departamento de Gestão Territorial, Cássio Roberto de Silva, disse que os estudos são suficientes, mas não finais. "Para estes projetos o governo sempre faz este estudo de viabilidade, e não foi diferente com o TAV. Tanto que no estudo constam os possíveis riscos do projeto", comentou ele. A Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) foi contatada, mas preferiu não comentar o assunto.
Dante Venturini Também afirmou que a Odebrecht está em conversas com diversas empresas com vistas à formação de um futuro consórcio. Ele, porém, garantiu, que nada será fechado antes de conversas com o governo. "Só iremos entrar na briga pela construção do TAV se o governo nos oferecer condições para isso, pois no caso de Belo Monte eles acharam que aquilo tudo era um blefe e que na ultima hora as grandes empresas iriam reaparecer. Tudo isso é muito parecido com o caso do TAV", afirmou Venturini.
Segundo ele, o investidor privado só investe quando faz o estudo e verifica todos os riscos, podendo, assim, minimizar, de alguma forma, esses perigos, mas garante que a Odebrecht não será a grande investidora neste processo. "Empresas iguais à Odebrecht não entram nestes processos com uma fatia muito grande de investimento, pois há companhias especializadas nisso, que empregam seu capital neste tipo de coisa, e isso não é bem o que fazemos", finalizou Venturini.
Otimismo
A Alstom acredita que, apesar dos estudos insuficientes, o projeto é muito importante, tanto para o País quanto para a empresa que irá construí-lo, e está otimista em um consenso entre governo e consórcio. "A iniciativa privada é essencial para a viabilidade deste projeto. Tão logo, a nossa expectativa é que o governo federal encontre um meio termo para facilitar este processo", comentou o presidente da Alstom do Brasil, Philippe Delleur.
Delleur também ressaltou que a empresa tem grande experiência na construção destes projetos e conta que foram responsáveis pela construção do TAV da Coreia do Sul, já estão construindo a linha de Marrocos e estão na disputa pelo Trem de Alta Velocidade da Arábia Saudita.
"Somos líderes mundiais na construção de TAV, nós possuímos todos os sistemas para isso, desde material rodante, até o trem que será colocado na linha", enfatizou ele, para em seguida salientar que "esse tipo de projeto não pode ser planejado e construído com pressa. Os detalhes podem definir a qualidade no futuro". Segundo o executivo, a Alstom planeja encabeçar um consórcio para disputar as obras do TAV e para isso pretende aliar-se principalmente a empresas brasileiras. "A ideia é formar um consórcio muito sólido; sabemos que as empresas brasileiras são muito boas, por isso queremos nos aliar a elas. Acreditamos muito no Brasil", disse.
A empresa Bombardier, que também pertence ao setor ferroviário, reafirmou o interesse no projeto. Entretanto, espera mais definições para formar parcerias. "A Bombardier está acompanhando o projeto do TAV com atenção, mas não chegamos ainda à fase de tomar alguma posição definitiva. Como líderes mundiais da industria ferroviária, inclusive nos trens de alta velocidade, setor em que temos mais de 850 trens em operação no mundo, temos muita experiência nesse tipo de projeto", contou o diretor de Comunicação, Luis Ramos.
De acordo com ele, este projeto é muito grande, complexo, com muitos intervenientes, e por isso a estruturação é mais difícil; normalmente projetos como este acabam levando mais tempo do que o previsto para se concretizar.

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